15 DE JULHO DE 1979 - QUANDO A NOITE SE FEZ DIA


15 DE JULHO DE 1979 – QUANDO A NOITE SE FEZ DIA

PREÂMBULO

A PUFOI tem estado a proceder à reanálise do essencial dos acontecimentos de algumas observações da casuística portuguesa, que embora já tenham sido classificadas na época do seu registo, suscitam um outro "olhar", cimentado em novas perspetivas e novos conhecimentos.

Os fenómenos tipo "vaga" (como é o caso presente em análise) e os testemunhados e reportados por pilotos civis e militares, merecem, sem dúvida, este procedimento.
Assim, surgiu o Caso de 15 de julho de 1979, pelo facto de apresentar caraterísticas variadas e larguíssimo número de testemunhas.

1 - FICHA DO CASO

Local: De norte a sul de Portugal continental e zona fronteiriça espanhola de Valência de Alcântara.
Data: 15 de Julho de 1979
Hora: Sensivelmente entre as 00,00h e as 3,30 h (embora haja referência a observações anteriores às 00,00h).
Distância: A cerca de 50 metros, na observação mais próxima (Chamusca, Ribatejo); talvez a vários quilómetros, nas observações mais afastadas.
Duração: Em geral, curta (poucos segundos), mas de alguns minutos, mais raramente.
Caraterísticas gerais do fenómeno: Forte luminosidade de cor clara, por vezes azulada. Massa globular em deslocação retilínea, deixando rasto luminoso, extinguindo-se poucos segundos depois. Flaches de luz dirigida e muito intensa. Velocidade, de lenta a muito rápida.
Testemunhas:
Alguns milhares.
 

2 - DESCRIÇÃO

Em 15 de Julho de 1979, os céus de Portugal apresentaram um conjunto de manifestações luminosas que, devido, por um lado, à sua elevada amplitude geográfica e por outro, a diferentes caraterísticas, nos leva a deduzir que, muito provavelmente, estivemos na presença, não de um único fenómeno, mas de vários fenómenos aéreos. Também o facto da duração das observações ser variável reforça esta ideia (ver mapa).
 


 

Para além das observações a longa distância, temos um conjunto de relatos, como o já citado na Chamusca, e o de Portimão, onde um guarda noturno afirmou ter observado um objeto circular, com cerca de 5 metros de diâmetro, a uns 250/300 metros de distância.

Depois, há também situações de objetos de forma esférica, estacionários, como o observado em Tomar – uma forma retangular na vertical, de contornos mal definidos, que se "apagou" no próprio local onde se encontrava.

Houve luzes ou objetos que surgiram antes ou depois de um clarão, referido por inúmeras testemunhas. Em V. N. Gaia, cinco minutos depois da passagem de um fenómeno tipo "bólide" (meteoro rápido), apareceram várias luzes de forma geométrica, em velocidade mais lenta. Em Alcácer do Sal, um automobilista primeiro observou um objeto a grande velocidade e pouco depois outro ainda, de forma alongada, que parecia perseguir o primeiro, mas animado de velocidade superior, até que o segundo objeto alcançou o primeiro, prosseguindo juntos 4 a 5 segundos, até se extinguirem.

Há relatos com audição de ruídos, como por exemplo em S. Martinho do Porto, Leiria, onde alguns jovens, após a observação do fenómeno, afirmaram ouvir um ruído surdo e prolongado, numa frequência baixa. Em Alcobaça, um automobilista foi encandeado pela luz, e meia hora depois, já nas Caldas da Rainha, soube que moradores tinham acordado à hora da sua observação com um barulho estranho, tipo "portas a bater". No Porto, o clarão, com o diâmetro da Lua, foi seguido por uma longa cauda 3 a 4 vezes maior; durante a passagem do fenómeno a testemunha teve a sensação de ouvir um ruído tipo zumbido ou sopro, pouco discernível, em crescendo e decrescendo. Em Torres Novas, Nazaré, V. N. da Barquinha e Torres Vedras, o clarão é acompanhado de um forte barulho. Em Castro de Aire, uma bola luminosa desfez-se com um ruído. Todos estes relatos apontam para uma possível onde de choque causada pela passagem do fenómeno.

Existem ainda outros pormenores, como os odores sentidos nalguns locais. No Restelo, Lisboa, o clarão tremeu com "flashes luminosos" e sentiu-se "um cheiro esquisito" no ar. Na Tapada da Ajuda, também em Lisboa, as testemunhas afirmam ter visto um objeto parado no ar, que, após desaparecer, deixou um "intenso cheiro a enxofre queimado".

Também há a registar casos de possíveis interferências elétricas, relacionadas com o fenómeno (ou fenómenos) aéreo. Em Pegões, o emissor de onda curta da RDP registou às 2,30h um corte de energia com a duração de 3 minutos. Em V. N. Gaia, um automóvel registou uma diminuição na potência das luzes, e o motor parou. Em Viana do Castelo, após a passagem do clarão sobre a cidade, toda a iluminação, incluindo a da via pública, se extinguiu, ficando tudo às escuras; a EDP e os Serviços Municipalizados confirmaram o "black-out", que se prolongou até às 3,46h. Em Tancos, foi visto um clarão amarelo-esverdeado emitindo um ruído tipo motor de combustão, e uma viatura que circulava na altura imobilizou-se por paragem do motor. E ainda mais espetacular: no Estoril, quatro pessoas deslocavam-se num automóvel quando viram o clarão; nesse momento o veículo "engasgou-se" e os ocupantes ficaram como que, momentaneamente, paralisados. Momentos antes, o rádio do carro registou interferências na emissão (a questão da "paralisação" referida pelas testemunhas pode ter sido devida apenas a uma reação psicossomática provocada pela surpresa e medo do imprevisto, do desconhecido!).

Quanto a relatos mais difíceis de explicar, por exemplo, à luz da hipótese meteórica, são de referir os seguintes: uns militares que se encontravam de serviço na zona do radar (portanto dentro do perímetro militar), localizado no topo do monte próximo da Base Aérea nº 2 (Ota), em Montejunto, afirmaram que ouviram, 5 minutos após o aparecimento do clarão, um barulho enorme, e viram surgir inicialmente no ar o que lhes parecia ser uma ponta de cigarro acesa, que eles pensaram ir aterrar. Ao passar na sua vertical parou ligeiramente e de repente abriu-se uma espécie de "janela", da qual foi emitido um clarão de forte intensidade que incidiu sobre eles e meio ambiente circundante (ver imagem abaixo).



No final da observação, o fenómeno apresentava uma forma charutóide, tendo-se afastado lentamente do local. A terra tremeu suavemente e alguns cães de guarda ficaram aterrorizados, chegando a fugir. É de referir que apesar de estarem junto às instalações do radar, este não se encontrava operacional. Também o sucedido em Idanha-a-Nova, Castelo Branco, onde foi observado um objeto muito fino e alto, que esteve parado cerca de 15 minutos, emitiu dois clarões e desapareceu no céu, com uma trajetória ascendente, não será muito fácil de explicar… Em Paço de Arcos, Lisboa, onde foram vistas várias "bolas de fogo", que se transformaram depois num rasto tipo "lágrima", que de repente desceu obliquamente, voltando a subir para depois desaparecer; na zona de Sete Rios, ainda em Lisboa, os observadores dizem ter ficado envolvidos por um cone luminoso, em cujo centro se distinguiam vários pontos luminosos esféricos. É de referir que uma testemunha, colocada fora da zona iluminada, conseguiu ver a origem da fonte luminosa, que estimou situar-se a uma grande altitude. Claro que neste caso poderemos equacionar a hipótese da luz ser apenas o forte clarão e os pontos luminosos poderem ter sido provocados pelo encandeamento; finalmente, gostaríamos de referir o caso de Costa da Caparica, observado por inúmeras pessoas junto à praia. Vejamos o relato, eloquente, de uma delas, que se encontrava com um grupo de amigos: "Vi nitidamente, como se fosse de dia, os pequenos grupos de pessoas à volta das fogueiras pela praia fora. Eu diria que a luz não fazia sombras. Tenho a sensação que a claridade banhava tudo e todos sem se verificar a projeção de sombras, como sucede naturalmente. Voltei a erguer os olhos e a fixar a atenção no objeto que apresentava claramente uma forma circular, e que nesse momento já passava por cima de nós ligeiramente à direita da linha vertical do ponto onde nos encontrávamos (talvez 50 metros à nossa direita). A luz, de um branco cristalino intenso, jorrava de um espaço central da parte inferior do objeto, mas nada comparado com um feixe de luz concentrada. Pelo contrário, não se percebia exatamente de que ponto dessa zona central inferior do objeto ela era projetada. O efeito luminoso nessa área do objeto assemelhava-se mais a uma ténue névoa simultaneamente brilhante e difusa, não permitindo discernir as formas do objeto por cima dela. Entre a zona do centro, de onde provinha a luz branca, e a área exterior do objeto circular, brilhavam, com intensidade variável, luzes de cores absolutamente fantásticas: vermelhos, verdes, azuis, mas com uma claridade diáfana muito superior à nossa vulgar luz de néon, transmitindo-me uma sensação de profundo conforto. Por momentos senti o desejo e a ilusão de que seria possível voar ou deixar-me submergir por aqueles brilhos esmeralda, rubis e azuláceos que delimitavam claramente o perímetro daquela coisa voadora. Por esses momentos, deslocando-se o objeto quase por cima do ponto onde estávamos, nem eu nem os outros conseguimos vislumbrar a forma da parte superior do objeto. Contudo, à medida que ele se foi afastando e quando cruzou a linha das arribas, para no instante seguinte desaparecer do nosso raio de visão, era percetível que não havia claridade nem nenhuma fonte ou forma de luz no espaço e na área por cima do objeto. Este, sempre emitindo estas luzes, e num absoluto silêncio, foi-se afastando lentamente da praia, sobrevoou a mata e, mais adiante, passou por cima das arribas, ponto a partir do qual deixámos de o poder observar, ficando a praia de novo no negrume da noite, e nós os três, boquiabertos sem conseguir articular qualquer frase coerente".

De referir ainda que os radares do aeroporto da Portela e da Força Aérea Portuguesa registaram ecos-radar desconhecidos.

 

3  - INVESTIGAÇÃO / HIPÓTESES

Desde logo, a imprensa, a rádio e a TV, fizeram eco destes acontecimentos, apresentando, estes dois últimos "media", alguns testemunhos em direto, o que transformou o caso num acontecimento nacional.

A maioria da imprensa revelou-se sensacionalista na abordagem do fenómeno, não hesitando em atribuí-lo a manifestações Ovni (embora muito prováveis, como apontam as conclusões do CEAFI e da PUFOI), sem uma análise criteriosa e detalhada de todos os relatos.

A investigação principal foi feita pelo CEAFI (Centro de Estudos Astronómicos e de Fenómenos Insólitos), com sede no Porto, mas com uma vasta rede de núcleos espalhados pelo território nacional, apesar de outras associações congéneres privadas, com menor expressão, terem acompanhado também o caso.

Na tentativa de encontrar explicação para o conjunto de manifestações aéreas relatadas, o CEAFI contactou várias entidades, a saber: o Instituto Nacional de Meteorologia e Geofísica (INMG), o Observatório Nacional da Ajuda (ONA), a NASA (Agência Espacial Norte Americana) e o NORAD (Comando da Defesa Aérea da América do Norte).

Relativamente à hipótese de se ter tratado de uma ou mais reentradas de matéria de origem meteórica, esta ou estas deveriam corresponder a corpos de apreciáveis dimensões, dado o tipo de relatos das testemunhas: "Bola de fogo, tipo bólide, rasto luminoso, etc.". Numa análise superficial, caraterísticas comuns a algo que, em rota de colisão, entra na nossa atmosfera. Contudo, é importante referir que o nosso planeta é bombardeado diariamente com cerca de 25 toneladas de partículas cósmicas, normalmente inferiores a um grão de areia, que se desfazem ao "tocarem" a nossa atmosfera e por essa razão invisíveis aos nossos olhos.

Por ano, a estimativa refere cerca de 30.000 fragmentos com um peso igual ou superior a 100gr. Destes, aproximadamente 100, possuem um peso igual ou superior a 10Kg e mesmo assim muito raramente chegam ao solo e nunca apresentam clarões deslumbrantes e dignos de grande referência. Um meteorito é um fenómeno comum mas fugaz, que dura escassos segundos.

Recapitulando, a nossa Terra é bombardeada 24 horas por dia, 365 dias por ano, por milhões de corpos meteóricos de origem natural, sendo muito raramente atingida por fragmentos que constituam notícia, por via do seu comportamento espetacular e isso traria consequências visíveis, o que não foi o caso.

Falou-se na possibilidade de se tratar do "enxame Delta Aquáridas", cujo pico se situa nos finais do mês de Julho, entre os dias 28 e 30, mas que em algumas tabelas se lhes dá um alargamento temporal de cerca de dez dias para a frente e para trás. Torna-se necessário explicar então o seguinte: Por volta de 15 de julho, o pico de chuvas de meteoros (a altura em que existem muitas mais), será relativo às "July Phoenicids" e não às referidas "Delta Aquáridas". No entanto, tradicionalmente, esta chuva de meteoros muito raramente é visível. Pode, no entanto, ter acontecido um ano excecionalmente bom em determinado local.

Ainda sobre 15 de Julho, uma coisa interessante nessa data, é que apanha muitas chuvas de meteoros ao mesmo tempo, umas delas a começar, outras delas a acabar. É óbvio que a começar e a acabar vêem-se muito poucas, fora do pico são noites normais de ver estrelas cadentes. No entanto, sendo uma data com tantas chuvas de "estrelas a cair", pode-se pensar que através da propriedade da acumulação, as pessoas podem ver estrelas cadentes em diferentes posições do céu, podem pensar que é só uma chuva de estrelas, mas poderá ser o acumular de várias, sendo uma estrela cadente de uma, outra de outra, outra de outra e assim sucessivamente (*).

Resumindo, a hipótese meteórica será remotamente possível, e a corroborá-lo, está a reação do responsável do Observatório Nacional da Ajuda, que, contactado pelo CEAFI, diria que provavelmente se trataria de um meteorito, dado que se estava na época das "Delta Aquáridas".

Se de facto se tivesse tratado de um fenómeno meteórico (ou de vários) com essa grandeza e amplitude, seriam essas mesmas entidades a dar a notícia aos "media", sem necessidade de responderem (descartando-se claramente da situação), apenas quando solicitados. Daí a hipótese meteórica perder grande valor, sem no entanto ser posta de parte.

Por sua vez, quer a NASA, quer o NORAD, afastam a possibilidade de se tratar de "lixo" da estação espacial "SKYLAB" (como chegou a ser aventado), que se desintegrou sobre o Oceano Índico, no dia 11 de julho, portanto, quatro dias antes destes fenómenos relatados (ver respetivas cartas de resposta no final do texto).

Foram estas as conclusões a que a equipa da "PUFOI" chegou.

(*) - Nesta análise contribuiu o parecer do Astrónomo Carlos Oliveira, da Universidade do Texas.
 

4 - CONCLUSÕES FINAIS

Pode-se concluir portanto que, num período de tempo bastante alargado, o espaço aéreo nacional foi sobrevoado por um ou mais artefactos voadores não convencionais e de característica e comportamento incomuns e claramente artificiais, percorrendo o território de norte a sul, tendo sido detetado/s por alguns milhares de pessoas, interferindo direta ou indiretamente (focos de luz projetada).

É possível que em simultâneo tivesse sido observado um ou mais meteoritos mas, como já foi referido, essa situação teria sido irrelevante, face ao evento descrito.

Gostaríamos de referir ainda que a "PUFOI", após esta análise procurou saber a opinião final de cada um dos seus três elementos ativos, que para o efeito, teriam 33%, como valor máximo para classificar o evento em questão.

O resultado que cada um deu a conhecer individualmente e sem o conhecimento prévio de cada um dos outros elementos, concluiu, em termos percentuais, que o caso aponta para os 90% de probabilidade de se ter tratado de fenómenos aeroespaciais desconhecidos. Os restantes 10% poderão incorporar outras hipóteses.

 

Porto, 7 de abril de 2015
A PUFOI